quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Fale Agora





A igreja estava cheia. Minha melhor amiga estava ao meu lado tentando me passar confiança. Do outro lado, minha irmã estava furiosa por conta da minha reação aquela situação bizarra.

Não iria ser hipócrita e dizer que estava normal. Eu estava em choque. Com raiva, também, mas principalmente em choque. Não esperava receber o convite para aquele casamento. Me imaginava ajudando a escolhê-los com uma aliança no dedo.

Por dentro, eu estava calmíssima. Meu coração não iria explodir (Oh, não). Quando recebi o convite, não chorei a noite inteira (Que nada). E nem gritei da janela que ainda o amava, mesmo que estivesse cometendo o maior erro de sua vida.

Estava controladíssima. Tão controlada que tinha sido praticamente arrastada até aquela igreja. Mas, uma coisa que eu me recusava a fazer, era interromper o casamento. Ele tinha feito a sua escolha. Ela, sua atual noiva, e não a mim, sua antiga namorada do colégio.

Eu ainda me sentia um pouco burra por ter acreditado em suas promessas. Que, mesmo na distância, ele me amaria. E que poderiam se passar 10, 20 até 30 anos. Ele nunca me esqueceria. E lá estava eu, no seu casamento. Com outra.

Então, se sentia tanta dor, raiva e recendimento em relação a ele, por que tudo pareceu tão banal quando nossos olhares se cruzaram?

Ele ainda era o mesmo. Alguns anos mais velho, mas o mesmo bobo apaixonante. Tantas coisas que eu tentei dizer em um único olhar. Tantas coisas que queria que me dissesse. Mas tudo isso, esse curto e maravilhoso momento, foi cortado quando a marcha nupcial começou.

Desviar meus olhos do dele foi doloroso. Porém, nem tanto quanto ver a noiva deslizando pela igreja em direção ao altar. Em direção a ele. Era impressão minha ou a marcha nupcial estava soando como uma marcha fúnebre?

A noiva sorria para todos, amigavelmente. Sabia que todos estavam ali para ver algo especial. Só não sabia se era o casamento se concretizando ou eu o interrompendo.

Conforme a cerimônia se seguia, senti vários olhares em mim. É claro que além de mim, do noivo, da minha amiga e minha irmã, tinha outras pessoas que sabiam de nossa história mal resolvida. Seus amigos, por exemplo. Sua família também. Todos esperando uma reação de mim.

A intensidade desses olhares aumentou quando o padre disse as decisivas palavras: Se tem alguém aqui presente que seja contra esse casamento, fale agora ou cale-se para sempre.

Um silêncio súbito atingiu a igreja enquanto eu me encolhia e fechava meus olhos. A dor aumentando contra meu peito, me fez gemer baixo, chamando toda atenção para mim. Um breve filme passou por minha mente. Nossas alegrias, nossas esperanças, nossos sonhos. Tudo jogado para alto por conta do destino. Eu ainda conseguia escutá-lo dizer que me amava.

Não sabia se tinha sido isso (as lembranças) ou se finalmente ele tinha me feito endoidar de vez, mas quando dei por mim, estava com minha mão levantada. Escutei um par de arfares e um par de suspiros aliviados , ao meu lado.

Pensei em abaixar minha mão, dizer ao padre que tinha sido um equívoco da minha parte e para continuar a cerimônia. Talvez meu antigo amor fosse feliz com sua noiva. Pensei em assistir em silêncio minha ruína. Pensei até em levantar e ir embora da igreja. Mas uma coisa me fez continuar.

Seu sorriso.

Era como se o tempo tivesse parado. Melhor, era como se o tempo tivesse parado e voltado. Era só olhar em seus olhos que eu conseguia enxergar a época em que éramos felizes juntos. Era só olhar em seus olhos para perceber que eu, mesmo que negasse, ainda o amava.

Por isso eu levantei e caminhei com passos lentos na sua direção. Porque, poderia passar o tempo que fosse, eu ainda o amaria. Era óbvio que ele sabia disso. Apostava que ele até sabia que eu interromperia aquele casamento, mesmo me recusando no início.

“Fale agora ou se cale para sempre, mocinha”, o padre disse me lembrando.

Me senti acordando de um longo sonho e percebi que estava parada no centro da igreja e todos esperavam por minha palavras. Meu coração batia feito louco contra meu peito. As palavras ficaram presas na minha garganta, olhei para o altar, vendo o olhar da noiva ir de doce e amigável para mortal e assassino.

Ele, meu amor, pareceu notar para onde eu estava olhando e alternou seu olhar de mim para sua furiosa noiva, então de volta para mim. Ele parecia estar nos comparando, como peças de um leilão.

Meus olhos pesaram, cheios de lágrimas. Todos aqueles anos esperando e eu estava sendo comparada? Como se decidisse qual era melhor levar para casa? Me senti uma total idiota. Era melhor chorar em casa , longe dele, que poderia quebrar meu coração e minhas esperanças com uma simples palavra: Adeus!

Mas, incrivelmente, não foi o que aconteceu. Minha visão, borrada com lágrimas, não o percebeu se aproximando e parando a minha frente. Só o notei quando segurou meu rosto entre suas mãos e disse as palavras que eu mais precisava escutar naquele instante.

“Eu te amo”, sua voz ainda era a mesma. Meu coração traidor deu um solavanco de reconhecimento. “Me desculpe por não ter voltado. Vamos fugir.”

Ele estendeu sua mão na minha direção e esperou minha resposta. Tinha tanta coisa para falar a ele naquele momento. Que eu era sensata. Que minha fase de correr risco sem pensar nas consequências já havia passado. Que ele não poderia jogar tudo para o alto por causa de um amor de escola.

Mas tudo o que eu fiz foi pegar sua mão e correr para fora da igreja. Seguindo os nossos, sonhos, desejos e esperanças. E o meu coração palpitante bem mais apaixonado.

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